Domingo, 15 de Junho de 2008
Indicador cai desde o segundo trimestre de 2007 e não é suficiente para financiar os investimentos no País
Fernando Dantas
Para muitos analistas, o Brasil tem um problema crônico de baixa poupança doméstica, que seria insuficiente para financiar os investimentos necessários para sustentar um ciclo longo de expansão a mais de 5% ao ano, um ritmo relativamente tranqüilo para diversas nações emergentes bem sucedidas.
Há evidências, de outro lado, de que o próprio crescimento leva a poupança a aumentar, o que faz com que outro grupo de economistas considere aquele tipo de preocupação um exagero da corrente mais ortodoxa.
O problema, porém, é que a divulgação do PIB do primeiro trimestre de 2008, na semana passada, revelou uma poupança nacional que não só é baixa, mas também não se está ampliando na esteira do forte crescimento desde 2006.
Na série encadeada de quatro trimestres, a poupança doméstica vem caindo desde o segundo trimestre de 2007, quando atingiu 18,09% do PIB. No primeiro trimestre de 2008, ficou em 17,57%. Analisando-se em perspectiva mais longa, os números também são desanimadores. Após ter atingido taxas muito baixas durante a crise de 2002 e 2003, a poupança doméstica recuperou-se para o pico de 18,6% do PIB no terceiro trimestre de 2004. De lá para cá, só caiu.
Na visão tradicional dos economistas, a poupança é a renda que não é gasta em consumo e, portanto, pode financiar investimentos. Quando a economia está aquecida, o consumo e os investimentos tendem a crescer simultaneamente. Como o aumento do consumo diminui a poupança doméstica, o País precisa de poupança externa para complementar o financiamento dos investimentos. Outro sintoma de consumo e investimento excessivos, em relação à capacidade de oferta da economia, é a inflação.
No caso brasileiro, há claro descompasso entre os investimentos, que vêm crescendo vigorosamente, e a poupança doméstica, que estagnou. Os investimentos cresceram de 16,4% do PIB no primeiro trimestre de 2004 (no conceito de quatro trimestres encadeados) para 18,6% nos três primeiros meses de 2008. A poupança, porém, ficou quase estagnada. O resultado é que o Brasil saiu de uma capacidade de financiamento de 0,56% do PIB no início de 2004 para uma necessidade de financiamento de 1% no primeiro trimestre de 2008.
O quadro real, porém, pode ser pior. De janeiro a abril, o Brasil registrou déficit em conta corrente de US$ 14,1 bilhões, equivalente a 3,09% do PIB. O raciocínio de vozes respeitadas nos meios econômicos, como a de Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, é que um eventual crescimento de dois a três pontos na taxa de investimentos, que parece o mínimo para garantir o crescimento sustentado e prolongado a taxas médias de 5%, levaria a uma ampliação do déficit em conta corrente.
Com isso, o indicador poderia atingir a faixa de 4% a 5% ao ano, que já levou a crises de balanço de pagamentos no passado.