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Congresso retoma discussão sobre jogos

Segunda-Feira, 01 de Junho de 2009 

Legislativo volta a analisar a legalização de bingos e cassinos; Fazenda já encara assunto com menos resistência

Luciana Nunes Leal, BRASÍLIA

O lobby em favor da legalização do jogo, sumido do Congresso depois do escândalo do mensalão (2004-2005) e das operações da Polícia Federal reprimindo os bingos, está de volta e mais fortalecido. O motivo do ressurgimento tem origem no Palácio do Planalto. Ao contrário da recomendação predominante até agora, de não levar o assunto adiante, o governo deu sinal verde para que parlamentares retomem o debate. Com esse aval, o primeiro passo será a discussão e a votação na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara da proposta de legalização de bingos e cassinos no País.

A principal resistência à legalização, que vinha do Ministério da Fazenda, temeroso de que a atividade ampliasse os crimes de lavagem de dinheiro e sonegação, diminuiu diante da proposta consolidada pelo deputado João Dado (PDT-SP). O que mais agradou ao governo foi o fato de a proposta aceitar a notificação online dos prêmios e do imposto a pagar – o recolhimento do tributo será, no máximo, no primeiro dia útil seguinte ao jogo.

O projeto também manda a indústria do jogo pagar royalties à União e aos Estados, proíbe concessão de crédito aos apostadores, para evitar endividamento, e cria um cadastro para apoio aos viciados em jogos.

A proposta está na pauta da comissão para esta semana. Como o tema é polêmico, deverá levar algumas semanas até ser votado. A matéria vai além da disputa entre governo e oposição e há divisões na maioria dos partidos. Por isso, a posição do Planalto é acompanhar o debate a distância, sem interditá-lo. Súmula do STF definiu, em 2007, que o jogo pode funcionar depois de aprovada uma lei federal – por iniciativa do Executivo ou do Legislativo.

IMPOSTO NA FONTE

Em fevereiro passado, João Dado e o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, se reuniram com o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Machado, e apresentaram o esboço do projeto. Segundo João Dado, dois pontos incluídos na proposta foram decorrentes da conversa com Machado e técnicos do ministério.

Primeiro ponto: a preservação dos bingos beneficentes, que ficam excluídos das regras fixadas na lei, desde que não distribuam prêmios em dinheiro e que se realizem em intervalos de, no mínimo, 15 dias. Segundo, a fiscalização da atividade a cargo da Fazenda e da Receita Federal.

Na quarta-feira passada, o deputado Paulinho conversou com o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro – elo entre o governo e o Congresso -, sobre a legalização do jogo. Segundo o parlamentar, Múcio recebeu cópia do projeto que aguarda votação na Comissão de Finanças. “O ministro disse que, da parte do governo, está liberado”, disse Paulinho. Outros parlamentares governistas reafirmaram a intenção do Planalto de não mais barrar a tramitação.

Um integrante do governo confirmou que não há intenção de obstruir a discussão sobre a legalização do jogo, o que não significa, segundo ele, apoio à proposta – o governo se sente politicamente confortável em deixar que a iniciativa fique com o Congresso. Ele considerou “salutar” a retomada da discussão e disse que “o projeto melhorou bastante”, em comparação com propostas anteriores. Lembrou que, no caso de aprovação pelo Congresso, o presidente pode vetar pontos que não considerar adequados.

ROYALTIES

Para enfrentar os argumentos sociais, em especial o aumento do vício em jogos de azar, o projeto de João Dado prevê a criação de um cadastro nacional de pessoas dependentes, que serão proibidas de frequentar os estabelecimentos. O banco de dados será feito pelo poder público, mas o projeto não detalha os critérios para inclusão dos dependentes, o que será feito em lei posterior.

Outro ponto mantém a obrigatoriedade de pagamento de royalties à União e aos Estados, no valor mensal de 15% da receita dos bingos e cassinos, a serem destinados à saúde.

O projeto considera infração penal o descumprimento da lei. Crimes como fraudar resultados, permitir entrada de menores nas casas de jogos e funcionar sem autorização implicariam em penas de prisão de 1 a 5 anos e multa.

PRINCIPAIS PONTOS

Permite a legalização de bingo, videobingo, videoloteria e cassino

Dá ao Ministério da Fazenda a atribuição de criar e homologar
o sistema de controle e fiscalização dos jogos

O poder público receberá royalties mensais de 15% da receita do estabelecimento, a serem aplicados em programas de saúde

Proíbe crédito para as apostas, que devem ser pagas à vista, para evitar endividamento

Cada cidade poderá ter 1 estabelecimento de jogo para cada 150 mil habitantes

Autoriza até 10 cassinos no País (no máximo 2 por região)

Bingos têm de empregar no mínimo 50 funcionários; cassinos, 500

Considera infração penal o descumprimento da lei, com penas de prisão e multa

AVANÇOS E RECUOS

1993 Lei Zico:

Permitia a legalização dos bingos por leis estaduais, com parte da receita destinada a confederações esportivas. Muitos bicheiros migram para a exploração legal dos bingos e dos caça-níqueis

1998
Lei Pelé:

Revoga a Lei Zico e permite funcionamento de bingos com autorização da União e não dos Estados. A Caixa Econômica
Federal (CEF) passa a conceder as licenças de funcionamento

2000
Lei Maguito:

Revoga a Lei Pelé e determina o fechamento dos bingos até dezembro de 2002. Muitos continuam a funcionar graças a liminares

2002
Lula e os bingos:

Candidato a presidente, Lula deixa claro que vai propor a legalização dos bingos

2003
Decisão de governo:

Grupo de trabalho do governo Lula estuda a legalização do jogo, com fiscalização da Receita Federal

2004
Caso Waldomiro:

Em fevereiro, estoura o escândalo que envolve o “empresário do jogo”, Carlinhos Cachoeira, e o ex-presidente da Loteria do Rio (Loterj) Waldomiro Diniz, transformado em assessor do então ministro da Casa Civil José Dirceu. O empresário gravou conversa em que Waldomiro cobrava propina para aprovar contratos com a Loterj. Em maio, Senado rejeita MP aprovada na Câmara que proibia bingos e jogos eletrônicos

2005
CPI dos Bingos:

Oposição consegue instalar a CPI dos Bingos, que descobre
doações de “empresários do jogo” à campanha de Lula

2007
Súmula do STF:

Supremo Tribunal Federal (STF) aprova súmula vinculante (decisão a ser seguida por todas as instâncias da Justiça) proibindo que leis estaduais tratem de jogos recreativos. Apenas a União pode tratar do assunto

2008
Pró-legalização:

Em setembro, a Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara aprova parecer (e um projeto substitutivo) do relator Vicentinho Alves (PR-TO) que legaliza bingos e cassinos. O projeto relatado, de autoria do deputado Mendes Thame (PSDB-SP), propunha exatamente o contrário: a proibição da exploração do jogo

2009
Proposta João Dado:

Em 14 de maio, o projeto de Mendes Thame, agora em análise na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, recebe outro substitutivo, do relator João Dado (PDT-SP){HEADLINE}

 

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Brecha na lei permite que bingos voltem a funcionar em São Paulo

Segunda-Feira, 16 de Junho de 2008 

Pelo menos 10 retomaram as atividades; legislação não deixa claro se sorteios com cartelas estão proibidos

Renato Machado e Laura Diniz

Usando brechas na legislação, proprietários de bingos no Estado de São Paulo estão encontrando amparo para reabrirem totalmente suas casas. E os locais de jogos já voltam a chamar a atenção – e a atrair freqüentadores – até dentro de shoppings paulistanos.

Pelo menos dez bingos retomaram suas atividades desde janeiro. Isso ocorre por causa de uma lei, que não deixa suficientemente claro se os bingos de cartela estão proibidos – ao contrário do que ocorre no veto às máquinas caça-níqueis, às videoloterias e ao videopoker.

Os estabelecimentos paulistas que reabriram estão ligados a pequenas instituições desportivas, principalmente do interior do Estado. No passado, essas entidades obtiveram decisões judiciais para atuar com bingos e, como são de pouca visibilidade, acabaram não tendo de enfrentar recursos do Ministério Público.

Esse é o caso da Liga Regional Desportiva Paulista, com sede em Campinas. A entidade conseguiu em 2003 um acórdão na 15ª Câmara do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que lhe concedia o direito de explorar o jogo de bingo. Como não houve recurso, o caso se tornou transitado em julgado, o que impede que a decisão seja revertida.

Os advogados da Liga ainda conseguiram em outubro do ano passado uma certidão atualizada da Justiça, reforçando que a decisão de setembro de 2003 continua valendo – de forma que as autoridades que não a reconhecerem estarão sujeitas a penalidades. Esse documento foi colado nas entradas de todos os estabelecimentos da organização que voltaram a funcionar.

Desde o fim do ano passado, a entidade fechou contrato com cinco casas da Grande São Paulo. Bingos de Santo André – Estação, Carlos Gomes e Barão (antigo General) – se filiaram em novembro de 2007 e logo em seguida retomaram as suas atividades. O mesmo aconteceu neste ano com o Interbingo – que funciona dentro do Shopping Interlar Interlagos, na zona sul de São Paulo – e o Teotônio Vilela, ambos na região de Interlagos, na zona sul da capital, que reabriram em abril e maio, respectivamente. Outros estabelecimentos negociam atualmente a sua entrada na Liga.

ADVOGADOS

“Essas casas só poderão ser fechadas se houver uma lei federal proibindo o jogo de bingo. Do contrário, eles continuarão abertos, porque a decisão da Justiça não pode ser revertida”, diz Patrick Luiz Ambrósio, sócio do escritório Advogados Associados, que representa a liga. Ambrósio argumenta que os jogos estão regulamentados pela Medida Provisória 2.216-37, o que é contestado pelo Ministério Público.

Segundo o presidente da Abrabin, Olavo Sales da Silveira, outras cinco casas voltaram a funcionar no interior do Estado desde janeiro. Todas adotaram o mesmo esquema de fechar parcerias com entidades que conseguiram decisões judiciais para atuar com os jogos. Silveira também diz que os bingos estão legais atualmente, mas que muitos permanecem fechados pois acham que o Judiciário é afetado pela opinião pública. “Depois da Operação Furacão (que deteve magistrados acusados de vender sentenças em favor da máfia do jogo), os juízes ficaram temerosos em ceder liminar para os bingos e serem alvos de investigações

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