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Pedido de vista do ministro Menezes Direito interrompe julgamento sobre a Lei de Biossegurança

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Quarta-feira, 05 de Março de 2008

Após o voto do relator, ministro Carlos Ayres Britto, pela improcedência da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3510, o ministro Menezes Direito pediu vista dos autos. “Acabamos de ouvir um precioso voto substantivo na qualidade e na informação”, declarou Menezes Direito. Segundo ele, a matéria é extremamente controvertida e apresenta alta complexidade, motivo pelo qual pediu vista dos autos.

“O dever da Suprema Corte de um país, quando tem de julgar temas dessa natureza, é fazer uma reflexão profunda, com tempo, com análise dos autos, para que possam ser sopesados todos os argumentos que foram apresentados, incluída a audiência pública que foi realizada”, disse.

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Plenário analisa nesta quarta ADI contra Lei de Biossegurança

Quarta-feira, 05 de Março de 2008

A partir das 14h, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) analisa a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3510, que pede a revogação dos dispositivos da Lei 11.105/05 (Lei de Biossegurança) que permitem a pesquisa com células-tronco embrionárias.

Durante o julgamento, terão direito a fazer sustentação oral a Procuradoria Geral da República, a Advocacia Geral da União e o Congresso Nacional, bem como as entidades admitidas como partes interessadas pelo relator do processo.

Após a leitura do relatório pelo ministro Carlos Ayres Britto, a fase de sustentação oral na tribuna deve iniciar com o procurador-geral da República, seguido do representante da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), que terá quinze minutos para falar. A PGR e a CNBB defendem a tese contrária à utilização dos embriões, posicionando-se pela inconstitucionalidade da lei (artigo 5º). Em seguida, fala o advogado-geral da União e o advogado do Congresso Nacional. Por fim, as entidades favoráveis às pesquisas – Conectas Direitos Humanos, Centro de Direitos Humanos (CDH), Movimento em Prol da Vida (Movitae) e o Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis) poderão dividir o tempo de 30 minutos, conforme prevê o Regimento Interno do STF,  para apresentar aos ministros seus argumentos.

O relator da ADI  informou que seu voto possui cerca de 78 páginas, e que ele prevê levar aproximadamente uma hora e meia para sua leitura.

Acesso ao Plenário

O acesso ao Plenário será restrito ao número de cadeiras disponíveis, sendo que do total de 246 lugares, há assentos reservados para todas as partes envolvidas no processo e seus advogados. Outras 50 cadeiras estarão reservadas à imprensa. A ocupação se dará por ordem de chegada. Vale lembrar que, de acordo com normas internas do STF, homens devem vestir terno e gravata e mulheres “terninhos” (calça e blazer), tailleurs (saia e blazer) ou vestidos em estilo formal para ter acesso às dependências do Plenário.

Os jornalistas poderão contar com um telão e estrutura de apoio com computadores e acesso a internet, instalada no segundo andar do edifício-sede, no hall do Salão Nobre. O outro telão, também no segundo andar, será destinado ao público, caso a lotação do Plenário esteja completa.

Os repórteres fotográficos vão dispor de um tablado, após a última fileira do Plenário. Se o espaço for suficiente para acomodar a todos, será possível acompanhar a  sessão. Caso contrário, haverá rodízio para que todos os veículos de imprensa registrem a sessão de julgamento.

A sessão será transmitida ao vivo pela TV Justiça (canal 53-UHF, em Brasília; SKY, canal 117) e pela Rádio Justiça (104.7 FM, em Brasília), inclusive pela internet. As imagens para emissoras de televisão serão geradas exclusivamente pela TV Justiça.

O sinal da Rádio Justiça estará disponível para as demais emissoras, através da freqüência 104,7 MHz, no Distrito Federal, ou via satélite.

 

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Células-tronco voltam a colocar ciência e fé em campos opostos

05/03/2008 – 06h30 – Atualizado em 05/03/2008 – 08h23

Pesquisadores enxergam oposição cristã às pesquisas como interferência no Estado laico.
Católicos argumentam que questão não é religiosa, mas ligada ao direito humano à vida.

Reinaldo José Lopes Do G1, em São Paulo

O Supremo Tribunal Federal (STF) se reúne para decidir nesta quarta-feira (5) se permite ou não a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas no Brasil, liberada originalmente há três anos pela Lei de Biossegurança. O tribunal julga o mérito de uma ação direta de inconstitucionalidade que quer barrar os estudos, os quais supostamente ferem o direito à vida estabelecido na Constituição. A decisão coloca muita coisa em jogo tanto para os opositores quanto para os defensores desse tipo de estudo.

Para os cientistas brasileiros, trata-se da oportunidade de tomar parte na área mais promissora da pesquisa biomédica moderna, que abre a possibilidade — ainda longe de ser realizada – de tratar doenças hoje incuráveis e de entender em detalhes sem precedentes o desenvolvimento do organismo humano. Por outro lado, grupos religiosos, em especial a Igreja Católica, consideram que a liberação da pesquisa com embriões seria um primeiro passo perigoso rumo à legalização do aborto e a outras práticas vistas como ameaça ao direito à vida.

Se não fosse pela origem controversa das células-tronco embrionárias humanas (CTEHs, para abreviar), sua aplicação terapêutica dificilmente seria questionada. Originárias de embriões com poucos dias de vida e apenas uma centena de células, os chamados blastocistos, as CTEHs são curingas fisiológicas, com capacidade de assumir a forma e a função de qualquer tecido. Neurônios, células musculares, ósseas ou pancreáticas — todos derivam da massa de células no interior do blastocisto. Em tese, seria possível produzir os tecidos perdidos em pessoas com lesões ou doenças degenerativas e recolocá-los nos doentes, curando males como mal de Parkinson e diabetes tipo 1.  

O problema é que esse potencial todo só está disponível porque essas células vão “construir” todo o corpo do futuro bebê. A única maneira de obtê-las, portanto, é destruir o embrião — daí a comparação do processo a um aborto ou a um assassinato. “Salvar um e matar outro não é resposta”, declarou em entrevista coletiva o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Geraldo Lyrio. Os católicos defendem que as células-tronco adultas — presentes em locais como a medula óssea e o cordão umbilical dos recém-nascidos — têm tanto potencial quanto as embrionárias, além de não incorrerem nos mesmos problemas éticos.

 Contra o Estado laico?

Os cientistas discordam — de fato, embora alguns estudos tenham mostrado que as células-tronco adultas podem ser pluripotentes, ou seja, conseguem se transformar em diversos tipos de tecido, só as CTEHs tiveram tal capacidade confirmada. “O que está acontecendo é uma interferência da Igreja numa coisa que, goste ela ou não, foi aprovada pela sociedade”, ataca Antonio Carlos Campos de Carvalho, médico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e responsável por alguns dos testes bem-sucedidos com células-tronco adultas no Brasil, empregadas experimentalmente contra problemas cardíacos.

Carvalho critica a decisão da Igreja de trazer a discussão para o campo de questões como o início da vida humana. Para os católicos, como também para alguns grupos evangélicos, o óvulo fecundado tem o mesmo status moral de um bebê ou adulto humano. “A Igreja chama a atenção porque se trata de um ser vivo, portanto, não pode ser eliminado. Como se iniciou o processo que eticamente é reprovável, os que o iniciaram têm também a responsabilidade ética de ajudar a descobrir a solução que seja compatível com o respeito à própria vida humana ali presente”, declarou dom Geraldo Lyrio.  

“É lógico que seria uma sandice negar que os embriões são uma vida. É claro que são. Mas o argumento deles é um sofisma. Mantidos congelados do jeito que estão, esses embriões jamais poderão se desenvolver e vão acabar sendo jogados fora de qualquer jeito”, diz Carvalho, lembrando que, de acordo com a Lei de Biossegurança, apenas embriões inviáveis ou congelados há mais de três anos poderiam ser usados, e somente com o consentimento dos pais. “Se aceitamos a definição de inatividade cerebral para retirar um órgão e doá-lo, não há por que não aceitar o uso de células de embriões que nem têm sistema nervoso”, argumenta. 

 Pesquisa parada

Em tese, a pesquisa com CTEHs no Brasil poderia ter se intensificado desde março de 2005, após a aprovação da Lei de Biossegurança. Na prática, porém, a insegurança jurídica fez com que a área apenas engatinhasse por aqui. Para se ter uma idéia, nenhuma linhagem de CTEHs — nome dado às populações “imortais” de células, que se multiplicam constantemente e podem ser usadas para estudar a formação de tecidos — foi estabelecida no país desde então.

“A ação de inconstitucionalidade deixou a gente com o pé atrás. Os trabalhos muitas vezes são feitos por alunos de mestrado e doutorado, e ninguém pode correr o risco de ver seu projeto de pesquisa declarado ilegal da noite para o dia”, conta Carvalho.  

“Foi uma chateação, um balde de água fria enorme”, diz Lidia Guillo, pesquisadora da Universidade Federal de Goiás cujo grupo foi um dos poucos a receber financiamento para produzir suas próprias linhagens de CTEHs. “Não dá para agüentar um trem desses”, reclama. A pesquisadora conta que chegou a pensar em descongelar embriões obtidos numa clínica de fertilização, mas ela e seus colegas acabaram recuando por medo de perder tempo com um processo complicado e, ainda assim, não poder ir em frente com a pesquisa mais tarde.

Guillo se diz sensível às questões éticas levantadas pela Igreja. “Eu sou católica, tenho formação católica. Não há como não perceber a beleza na formação da vida humana. Como uma enzima consegue se encaixar certinho no lugar dela? Tem de ter uma força impulsionando isso. Mas a Igreja precisa evoluir, porque a sociedade não vai simplesmente deixar de fazer o que ela prega, principalmente quando se trata de curar doenças”, afirma ela.   

 Curas, mas não milagrosas

A hierarquia católica chegou a criticar a ênfase dada pelos cientistas ao potencial terapêutico das CTEHs. De fato, até agora não foram feitos testes clínicos (ou seja, em pessoas) dessas células, em parte porque é difícil controlar sua diferenciação (transformação) em tecidos específicos. Os cientistas ainda estão aprendendo a “domar” esse potencial. ”A Igreja é sensível ao sofrimento de tantas pessoas que desejam a cura, mas não concorda com a manipulação dos sentimentos delas com informações falsificadas”, declarou dom Geraldo Lyrio.

Para Guillo, no entanto, as associações de pacientes de doenças incuráveis que pressionam o governo pela liberação da pesquisa estão conscientes das dificuldades. “Essas pessoas estão muito bem informadas, principalmente por participarem de associações que acompanham os últimos resultados das pesquisas”, afirma. “Muitas delas têm consciência de que as terapias vão beneficiar outras pessoas que não elas, porque infelizmente é um processo demorado.”

“De fato, houve alguns exageros de parte a parte [em relação à aliança entre cientistas e doentes]“, reconhece Carvalho, da UFRJ. “É uma promessa, mas que tem de enfrentar barreiras importantes. Agora, se a proibição continuar, teremos um atraso ainda maior. E o Brasil ficará numa posição de dependência frente a outros países que aprovaram a técnica”, arremata.

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